OS CAPACETES BRANCOS ( * ) PODERIAM ESTAR APOIANDO O BRASIL
‘OS CAPACETES BRANCOS’:
FILME RELEVANTE E HUMANITÁRIO, MAS SEM FOCO E SUBSTÂNCIA
Postado
por Danilo Areosa
Os Capacetes Brancos é uma produção original
da Netflix que faturou o Oscar de melhor documentário de curta-metragem
deste ano na premiação. É centrado nos civis voluntários – que usam capacetes
brancos, daí o motivo do título da produção – responsáveis em prestar
auxílio às vítimas dos bombardeios na Síria, pais que está em guerra civil
desde 2011, envolta atualmente na polêmica do Estado Islâmico e na intensa
guerra travada com países que são grandes potências como EUA, Rússia,
Inglaterra e França.
Dirigido
por Orlando von Einsiedel, responsável pelo
emocionalmente intenso Viruga (2014),
o curta documentário não deixa de ter a sua relevância social e humanitária ao
mostrar o papel dos capacetes brancos dentro dos horrores da guerra, sendo uma
história realmente inspiradora, afinal a grande maioria que está na linha de
frente são civis sírios – o próprio grupo se auto denomina como “a defesa
civil” do país – que exercem profissões comuns da vida cotidiana como padeiro,
pedreiro e ferreiro, levando vida e humanidade para ajudar pessoas que estão em
áreas bombardeadas, inclusive o curta cita durante a sua projeção que o grupo
salvou mais de 60 mil pessoas neste período.
Sim, a
história realmente é bonita e não à toa, recebeu a indicação ao prêmio Nobel da
Paz. Pena que como documentário, Os
Capacetes Brancos é nada ambicioso na sua investigação sobre a
atuação do próprio grupo nos resgates como da sua própria existência. Einsiedel
se esforça em apresentar uma visão positiva do grupo, vendendo o seu
documentário como uma propaganda humanista da entidade, ressaltando as nobres
ações destes seres humanos benevolentes que se sacrificam e colocam em risco
suas próprias vidas para ajudar desconhecidos.
O grande
problema é que o documentário não dá um escopo substancial ao ponto de vista
narrativo, de respeito ao trabalho destas pessoas, soando muitas vezes
superficial e sem grande relevância no processo investigativo. Falta aquela
pergunta digna de Globo Repórter: quem são, como surgiram e de onde vieram os
capacetes brancos? É nítido que este olhar mais crítico é evitado a todo
momento pela produção, que foge das polêmicas relacionadas ao que há nos
bastidores, principalmente de onde provém o seu real financiamento e da
estrutura da organização, inclusive na internet, há diversos debates
questionando as ações do grupo. Logo, o curta, além de não debruçar sobre estas
polêmicas, perde a oportunidade de discutir a situação política-social do país
de forma mais definida, sem que fosse necessário abraçar qualquer lado político
– e é fácil perceber que o documentário possui material de sobra para fazer
isso e bem que poderia arriscar por esta ótica.
Na estrutura
narrativa, não há nenhuma construção especial e “Capacetes” é bem irregular na
sua metragem. Possui dez minutos centrados na parte mais operativa, e sem dúvida,
a mais envolvente do documentário, mergulhando o público naquele mundo de
pessoas, na qual medo, insegurança e impotência imperam diante de uma
guerra muito maior que elas e que as destrói pouco a pouco. Se
isso já ajuda a criar um elo emocional com o público, o curta-metragem
acerta ao intercalar cenas de entrevistas com três capacetes voluntários e
em uma delas, o homem relata que faz aquilo pensando na filha, de que
ela possa viver em um mundo melhor, evocando um sentimento
emocionalmente honesto ao longa. Em contrapartida, essas entrevistas
apresentam outros momentos carregados de frases cheias de clichê, a maioria
claramente ensaiada de frente para câmera, onde as palavras são ausentes de
emoção.
Sem
qualquer explicação, a direção de Einsiedel muda seu foco, deixando o olhar
mais realista das operações de resgate para centrar-se 30 minutos da sua
duração, em um treinamento realizado pelo grupo na Turquia, fora da zona de
conflito, que se torna enfadonho, até porque as cenas de treinamento
tem pouca eficácia para o drama das personagens e ainda tira do público aquilo
que até então era o seu atrativo: as intervenções de resgate dos
capacetes no seu dia a dia.
É claro
que há momentos ao longo do curta para se emocionar como a famosa cena do
resgate de um bebê com vida de dois meses entre os destroços de um desabamento,
um momento de esperança, milagre e humanidade em um espaço destronado pela
guerra. O curta também dá aquele nó na garganta no espectador ao mostrar que
nos lugares onde não há guerra, a visão de um avião é associada pela mente
infantil como algo fascinante, enquanto nesta realidade de guerra, as crianças
sírias o associam tragicamente a um arauto da morte, afinal qualquer avião
sobrevoando aquele espaço bélico é a fonte de destruição por trazer bombas que
exterminam suas vidas.
Capacetes
Brancos tem na sua essência, uma relevância social e humana
importante para se discutir nos tempos atuais, mas que perde o seu foco por
colocar para debaixo do tapete, o outro lado da moeda, não mostrando
as diferentes visões e percepções sobre seu objeto de estudo que poderiam
deixá-lo mais complexo. É até uma história bonita, com personagens de atitudes
nobres e heroicas e imagens emocionantes que infelizmente é contada de uma
forma pouco relevante, tirando toda sua urgência em torno da temática e sua
qualidade.
Nota do divulgador:- Já foram indicados para receberem o Prêmio Nobel da Paz!!!
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